domingo, 9 de março de 2014
His
"Her" mal estreou no Brasil e já está badalado. Muita gente assistindo e falando maravilhas do filme. Na quarta-feira de cinzas, influenciada pelos apelos positivos, saí de casa para assisti-lo. E confesso que, na contramão da crítica, não gostei nem um pouco do que vi.
É que o que eu vi acho que ninguém viu. Eu vi Samantha! Sim! Samantha em carne e osso. Algo que nem a própria Samantha sabe que tem.
Samantha é bonita, gostosa, agradável, tem olhos brilhantes, sorriso irresistível, pele perfeita e macia. Samantha, como toda mulher, é vulnerável, se irrita com os vacilos masculinos, tem ciúmes... Mas, em compensação, ela tem um bom humor incrível! E ri de todas as piadas do seu homem. Samantha é positiva, otimista, não deixa a peteca cair e, acima de tudo, ela está sempre disponível! Samantha é a mulher dos sonhos de todo homem. Não é por acaso que o diretor do filme escolheu a voz de Scarlett Johanssen, um dos mais famosos símbolos sexuais de Hollywood, para vivê-la no cinema. Só é uma pena que ela só tenha realidade em um sistema operacional. Por que nenhuma mulher de verdade é boa o suficiente, não é mesmo?
Bem, se você é bom entendedor, já entendeu por que eu não gostei do filme. Mas, se não é, vou te dar uma mãozinha.
"Her" é um filme machista! Ficou mais claro agora? Seu diretor perdeu a oportunidade de, ao aprisionar a mulher perfeita em um sistema operacional, fazer uma crítica contundente (tinha tudo para isso) à nossa resoluta sociedade machista. A gente fica extremamente frustrado lá pelo meio do filme, de ver logo que essa crítica não vai chegar nunca. Theodore é um kitsch do cinema mais kitsch: um homem esquisito, nerd, solitário, incapaz de satisfazer uma mulher, sem disposição para qualquer compromisso afetivo, que, adivinha?!, não consegue se relacionar com ninguém a não ser com um computador! Toda a sua vida se resume a experiências solitárias, até quando era casado, pois, após a ilusão do amor juvenil, não consegue viver o amor maduro, afastando-se cada vez mais de sua mulher. Seu divórcio, inevitável, surge desse afastamento, de sua incapacidade de se relacionar com maturidade e profundidade e só lhe restam as experiências virtuais, que nada mais são do que experiências de solidão. Ironicamente, ele vive de escrever cartas para pessoas que, como ele, são incapazes de expressar seus sentimentos umas às outras. No mundo das virtualidades,as relações são possíveis porque não se concretizam, não há choro, não há sorrisos, não há olho no olho. Elas só se tangenciam, e só assim são suportáveis.
Mas quando a gente pensa que o filme é uma crítica a esse distanciamento das pessoas no mundo moderno, informático e impessoal, quando a gente pensa que "Her" vai expor a beleza do humano sobre a selva de pedra (o vermelho das camisas de Theodore em contraste com o cinza dos arranha-céus promete), a gente vê que foi enganado. Como faz toda mulher, afinal! Trata-se, na verdade, de uma ode à misoginia masculina. Tudo o que a sociedade machista pensa da mulher está lá: ela tem fantasias sexuais estranhas (quem entende as mulheres?), ela é louca, quer compromisso logo no primeiro encontro, é dissuasiva, e quando aparece uma que parecia bacana de verdade, que parecia ser a certa, ela nos trai com outro (com outros, na verdade, seiscentos e tantos). Tadinho dozomi! Quando Theodore - apenas um homem incompreendido - encontra a mulher ideal, tragicamente um sistema operacional, ela se vai, para ser... ela mesma! Ser ela mesma o desilude. Ela precisa ser dele, ser ele. Precisa ser "His", o que, aliás, acho que caberia melhor como título do filme. Também, não se trata de um filme sobre as relações humanas em tempos informáticos e cibernéticos. O mundo informático é apenas um detalhe nesse kitsch misógino. Samantha bem poderia ser uma mulher inflável. Ou um anime. Não faria a menor diferença.
O que faz diferença aqui é um possível olhar feminino sobre o filme. É o olhar crítico sobre a misoginia do mundo machista. É o olhar solidário sobre Samanhtha, a mulher que nunca foi. Não somos Scarlett Johanssen. Somos as Samanthas de carne e osso. Mas, ao contrário delas, perfeitas a nossa maneira. Somos nós mesmas.
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Mesmo não concordando com todos os seus argumentos, em momento algum deixo de respeitá-los e enxergar a crítica que se propôs a fazer... Mas, se me permite opinar, Spike Jonze, ao dirigir este filme, fala intimamente a respeito da solidão do que qualquer outra manifestação de machismo camuflado sobre instrumentos cibernéticos futuristas. É claro que, como todo ponto de vista é válido e toda pessoa possui um índice de interpretação voltado para (ao meu ver) seus mais profundos vínculos intelectuais, eu nunca me colocaria contra sua posição. Até mesmo o contraste de cores presente entre as roupas utilizadas pelo personagem principal (que se me permite comentar, muito bem interpretado pelo esnobado ao Oscar, Phoenix) e os gigantescos prédios cinzentos da cidade do futuro, são ao meu ver outra imensa crítica a solidão que o personagem sente ao ser esmagado por uma realidade distinta. Essa solidão de que falo, é sobre a solidão humana (e neste caso, o papel do homem ou mulher não teria utilidade). Até por que, se o tal sistema operacional funcionava também para as mulheres, se o personagem principal fosse feminino o filme falaria sobre um apelo aos desejos femininos de um "homem ideal" que também estaria camuflado num computador?
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