segunda-feira, 21 de abril de 2014
Ninfomaníaca – Volume 1 de uma crítica inacabada
Capítulo 1: O Sr. T
Na noite de estreia de seu mais recente longa-metragem nas telas do cinema, o Sr. T. estava em êxtase. A película, que conta a história de uma perversa ninfomaníaca, acabara de se tornar um dos maiores sucessos comerciais e artísticos de sua carreira. Não poderia ser de outro modo: anunciado mais de um ano antes de seu lançamento, o filme causou expectativas, conjecturas, comentários e excitação, tudo isso provocado, é claro, por uma intensa e inteligente campanha midiática na qual, entre promessas de cenas de sexo explícito, mostrava imagens de seus principais atores – muitos e famosos – exibindo provocantes e acintosas caras de prazer orgástico. Por mais de um ano, o público de cinema esperou ansiosamente por ver esse anunciado porn cult.
Há dúvidas, porém, de que o Sr. T. seja merecedor de tanto. Como todos nós, o Sr. T. tem seu lado B, nele preenchido por uma profusão de filmes pornográficos e declarações bombásticas de simpatia ao nazismo. Também não foi criado num ambiente como exatamente os moralistas de plantão gostariam. O Sr. T foi criado por uma família liberal, que o levava a praias de nudismo. Sua mãe só lhe contou que seu pai não era seu pai biológico muito mais tarde e emoções e gestos de carinho não entravam no cardápio da família. Essa liberalidade asséptica casou-se com uma personalidade um tanto arrogante e autossuficiente, que lhe rendeu uma juventude solitária, rebelde e autoritária. Com isso, ganhou inimigos, tanto do lado dos defensores da moral e dos bons costumes, quanto dos defensores das liberdades democráticas, que não engoliram seu “humor” negro (“Isso foi uma brincadeira”, defendeu-se o diretor, após afirmar que “compreendia” Adolf Hitler).
Mas isso tudo faz do Sr. T. um sujeito mau? Seria um aproveitador? Um gênio insensível a conspirar contra tudo e contra todos? Seria o seu mais recente sucesso apenas o resultado de uma excelente campanha de marketing? O triunfo da imoralidade e do cinismo?
Naquela noite da estréia o Sr T. estava em êxtase. O que não se prolongou por muito tempo, após a leitura de um apanhado de críticas que saíram no jornal. “Pervertido”, “pornográfico”, “pretensioso”, “previsível” são apenas umas das inúmeras ofensas que lhe foram imputadas pela crítica e pelo público, não obstante o sucesso de bilheteria. Não lhe perdoaram o sexo explícito, apesar da bela trama psicológica. Houve quem tivesse saído do cinema no meio da sessão, indignado com as cenas de sexo oral e com o nu frontal masculino. Mas como o Sr. T. é um sujeito prático, largou as críticas e saiu para pescar. A manhã ensolarada era um convite irresistível à pescaria.
Capítulo 2: O dado
O Sr. T. não pesca como a maioria dos mortais. Pescar não é para ele apenas uma diversão. É, sobretudo, um jogo. Para além do anzol e da isca, ele traz sempre um dado.
O leitor há de se perguntar o que um dado pode ajudar numa pescaria. Nada, se quer já saber. Mas não se trata aqui apenas de pescar, do ato puro e simples e prático de pescar. O Sr. T. não é apenas um homem prático. É também um articulador, um pensador, um estrategista. Não pesca pelos peixes que pode arrastar, mas pelo prazer de traçar estratégias. É aí que o dado entra. Se desse 1, ele faria a mea culpa, mea máxima culpa, e pediria desculpas ao público pelo grosseria do sexo explícito; se desse 2, pediria para o público esperar a parte 2, ainda por vir, para julgá-lo; se desse 3, tentaria explicar os verdadeiros motivos de sua obra, seu processo de criação e as intenções por detrás do sexo explícito; se 4, diria que não ninguém entendeu nada, que o público é idiota, que não tem cultura, e lhe diria meia dúzia de palavrões; se fosse 5, mostraria o pau, em cadeia nacional; e se desse 6, daria apenas um sorriso e não diria nada.
Deu 5. Mas o número final deveria ser o resultado da subtração do número obtido pelo dado pelo número de peixes pescados.
Capítulo 3: A declaração
Voltou com 2 peixes. Imediatamente, ligou para o assessor de imprensa e pediu uma entrevista de urgência. O escândalo tinha só começado.
O assessor foi tão competente quanto a avidez midiática. Em poucas horas, o Sr. T. estava no salão da associação de imprensa fazendo a seguinte declaração:
“Gostaria de fazer alguns comentários que julgo importantes para o público e a crítica em geral, que, tenho certeza, não compreenderam o meu filme (do mesmo modo que compreendi Hitler).
1º, 2, 3 e 5 são números que fazem parte da seqüência de Fibonacci. Hoje, pela manhã, eu pesquei 2 peixes e obtive 5 no dado e é por isso que eu estou aqui dando essa explicação para vocês.
2º, os números de Fibonacci estão relacionados à razão áurea, que, segundo os gregos, davam a equação numérica das formas perfeitas, da beleza. O que eu quis no meu filme foi falar dessa beleza, dessa perfeição que temos, em nossa cultura, como ideal de vida, sem jamais alcançá-la. Portanto, perversa é a nossa cultura e não os paus e bocetas exibidos no filme..
3º, o meu filme não é sobre paus e bocetas, combinados ou não em penetrações e sexo oral. Meu filme é uma reflexão sobre os interditos do prazer feminino, a impossibilidade determinada por essa cultura judaico-cristã (e, nesse ponto, odeio tanto judeus quanto cristãos), ao prazer feminino. A reação de vocês, ao repugnarem-no, exemplifica bem o que a cultura (e não propriamente o cinema) pode ou não pode tolerar. A cultura não pode tolerar o prazer feminino e é contra isso que eu me insurjo. Mas tenho certeza absoluta que os senhores não correriam para o cinema para refletir sobre nada disso se não fosse pelas cenas de sexo.
4º, foi uma pena que vocês não tivessem apreciado devidamente a cena com a Umma Thurman, que é, sem dúvida, uma das melhores cenas da minha carreira cinematográfica. A Sra. H. representa a mulher reprimida, assexuada, escondida por detrás da figura da mãe e da esposa, a típica e desejada mulher burguesa, a mulher respeitada, mulher de bem, em oposição à lasciva Joe. No mundo da Sr. H. não existe lugar para o sexo e nem para o amor, mas apenas para a artificialidade do papel social o qual a mulher deve representar. O tom tragicômico da cena e da personagem completam o seu significado, pois considero cômico uma mulher batendo à porta de outra e lhe entregando o marido e mostrando aos filhos a “cama da prostituição”, ao qual eles devem memorizar pois essa imagem será útil nas sessões de análise que eles não poderão pagar. Mas, ao mesmo tempo, tudo isso é trágico, pois o que essa mulher quer é recuperar seu marido por uma espécie de ritual de auto-humilhação. Ela aprendeu que a mulher sofrida e assexuada leva vantagem numa sociedade competitiva.
5º, sim, eu joguei com vocês. Isso foi uma trapaça sórdida da minha parte. E vocês caíram como uma presa fácil. Vocês foram enganados pela ninfa, que por si só é um engodo, pois de alimento não tem nada, do jeito que Seligman descreve na cena em que explica a técnica da pescaria. A ninfomaníaca foi apenas um pretexto para que eu pudesse abocanhar vocês, devorar a naturalidade com que vivem no conforto da ignorância. Eu joguei a ninfa para ilustrá-los, para enfiar-lhe pela goela abaixo a reflexão sobre a opressão feminina. Só a televisão poderia ser melhor para essa violência do que o cinema, mas aí eu seria censurado e todo o meu trabalho de mestre, de como enganar vocês, iria por água abaixo. Então, eu escolhi o cinema.
E 6º, eu espero que nada do que eu tenha dito aqui seja verdade, com exceção dos números de Fibonacci, que, afinal, não têm importância nenhuma para a trama, após vocês assistirem a segunda parte de Ninfomaníaca.”
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